Reflexões teológicas no livro de apocalipse (Parte 1)

Sofrimento e Vitória

Introdução.

O propósito dessa pequena série de reflexões não é atentar para a teologia do livro de apocalipse (como p. ex. estudar a natureza de Deus, a Trindade, Cristologia, Eclesiologia, Teodiceia, Escatologia, etc, no livro de apocalipse). Antes meu humilde propósito é proporcionar reflexões teológicas importantes tanto no livro de apocalipse como na teologia bíblica do apóstolo João. Não irei tratar de questões introdutórias ao livro (como data, autoria, propósito, estrutura, gramática etc), o leitor perceberá essas questões pressupostas ao longo das reflexões (como o pressuposto de que foi o apóstolo João o autor).
Espero que as reflexões pontuadas in nuce, possa ajudar o leitor em sua compreensão desse maravilhoso e difícil livro da Escritura.

1. A vitória de Jesus.

Podemos notar que no livro de apocalipse, assim como no evangelho de João, a morte e aparente derrota de Cristo na cruz, é na realidade, seu glorioso triunfo sobre satanás.

Ap. 5. 5-14

 5 E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a raiz de David, venceu para abrir o livro e romper os sete selos.
6 Nisto vi, entre o trono e os quatro seres viventes, no meio dos anciãos, um Cordeiro em pé, como havendo sido morto, e tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus, enviados por toda a terra. 7 E veio e tomou o livro da destra do que estava assentado sobre o trono.
8 Logo que tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.
9 E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação; 10 e para o nosso Deus os fizeste reino, e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra.
11 E olhei, e vi a voz de muitos anjos ao redor do trono e dos seres viventes e dos anciãos; e o número deles era miríades de miríades; e o número deles era miríades de miríades e milhares de milhares,
12 que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.
13 Ouvi também a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos: 14 e os quatro seres viventes diziam: Amém. E os anciãos prostraram-se e adoraram.

O cordeiro ao morrer em resgate do povo de Deus recebe glória no mesmo nível que Deus o Pai. Na Cristologia Joanina, a glorificação de Cristo tem seu inicio na sua morte na cruz. Essa é a “ironia da cruz” sempre ensinada pela igreja, ou seja, Jesus reina e é glorificado na cruz, porque na cruz Ele vence nossos pecados e o diabo com seus demônios.

2. Seguindo os passos de Jesus.

Os seguidores do cordeiro são chamados a imitar o paradigma da vitória irônica de Cristo em suas próprias vidas. Através da perseverança da igreja em meio a tribulação, ela reina no reino invisível do Messias (cf. 1.9).
O corpo de Cristo exerce sua função real em meio a todo o sofrimento da mesma maneira que Cristo exerceu na cruz.
Apesar do corpo “externo” dos cristãos estarem sujeito a sofrimento e morte, Deus é fiel para guardar a alma regenerada de todos os santos.

3. A derrota dos inimigos da igreja.

Quando os inimigos da fé cristã persegue a igreja com sofrimento e morte, eles derrotam a si mesmo espiritualmente, eles se autodestroem, da mesma maneira que satanás foi derrotado mediante a cruz de Cristo.
Ainda que aparentemente aos olhos humanos, satanás teve uma vitória física sobre Cristo, o que ocorreu na realidade foi sua humilhante derrota. Essa realidade foi expressa em outras palavras pelo pensamento paulino em resposta ao movimento herético em Colossos da seguinte maneira: “…havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz, e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz” (Cl. 2.14-15).

A opressão exercida contra os cristãos (quando não há arrependimento posterior), estabelece um aumento do juízo/condenação sobre os opressores na ocasião do julgamento final, e até mesmo se torna expressões de julgamentos presentes de endurecimento do coração das pessoas impenitentemente rebeldes (para João, com o advento de Cristo, há a inauguração do julgamento/condenação escatológico).
Percebemos uma relação paralelamente recíproca entre os dois povos. O povo de Deus sofrendo fisicamente mas triunfando espiritualmente da mesma maneira que seu Senhor, o Cristo. Da mesma sorte, o povo contra a igreja aparentemente triunfa na esfera física, oprimindo e matando a igreja, mas se auto derrotam e se auto destroem assim como o diabo, senhor deles.

Conclusão.

O propósito retórico principal do argumento literário de João em Apocalipse (conforme colocado por Beale) é exortar o povo de Deus (que na ocasião passava por duras perseguições) a permanecer fiel ao chamado para seguir o exemplo paradoxal do cordeiro, e não se comprometerem, tudo com o propósito de herdarem a salvação final.
Entretanto, esse não é o alvo teológico principal do livro. O maior motif teológico do livro é a glória devida a Deus, por Ele ter adquirido plena salvação e condenação final.
Até mesmo a noção de Cristo e sua igreja reinando ironicamente em meio ao sofrimento, e a ideia dos perseguidores descrentes experimentando derrota espiritual em meio a sua vitória física, demonstra a suprema sabedoria de Deus, apontando para Sua Glória resultante disso tudo.

 

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