A inauguração do Milênio: uma exposição de apocalipse 20.1-6 (parte II).

 

O Milênio é inaugurado pelos santos falecidos durante a era da igreja através da ressurreição de suas almas, colocando-os no estado celestial de autoridade com Cristo, como sacerdotes e reis sobre o reino da morte (20.4-6).

 

Introdução.

 

Os temas primários em 20.4-6 são vida e reinado. Isso significa que a função do milênio é demonstrar a vitória dos cristãos que sofreram. Aqueles que foram mortos pela besta são aqueles que verdadeiramente vivem, e de fato reinam com Cristo, não somente durante o milênio figurativo, mas ao longo de toda a eternidade (22.5).

Isso está de acordo com o restante do ensino do NT. O apóstolo Paulo diz: Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos (2Tm 2.11–12).

 

20.4 Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos.

O foco nos acontecimentos no abismo (20.1-3), muda para os acontecimentos no céu. O verso 4 retrata os efeitos da queda de satanás (20.1-3) sobre a comunidade dos santos. O foco do v.4 é que a queda de satanás foi um juízo sobre ele que traz vindicação para os santos[1]. Tal vindicação é positivamente demonstrada pela ressurreição e reinado deles em tronos com Cristo[2].

Os eventos de 1-3 e os de 4-6 acontecem no mesmo espaço de tempo, a saber, os “mil anos”. As evidências para entendermos que mil anos não se referem a números cronologicamente literais são[3]:

 

  1. O uso figurativo de números ao longo do livro.
  2. A natureza simbólica do contexto imediato (p. ex. “correntes”, “abismo”, “dragão”, “serpente”, “selo”, “besta”).
  3. O tom simbólico predominante em todo o livro.
  4. O uso figurativo de “1000” no Antigo Testamento.
  5. O uso na literatura judaica e cristã onde mil anos como figurativo da benção eterna dos remidos.

 

O julgamento inaugurado contra satanás (v.1-3) é a favor dos santos. Esses santos estão assentados em tronos para julgar. João associa os tronos aos 24 anciãos que representam o povo de Deus diante de Si mesmo, em outras palavras, estão reinando com Cristo no céu.

  1. 5-6 Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos.

No verso 4, o exercício do julgamento pelos santos, suas vidas e reinado com Cristo são efeitos da prisão de satanás (v.1-3). Agora esses efeitos são interpretados como “primeira ressurreição”, a identificação sacerdotal dos santos, proteção contra a segunda morte, e reinado[4].

 

O argumento mais substancial a favor do pré-milenismo é o “restante dos mortos que não reviveram” (5a). O restante dos mortos são os ímpios, e reviver claramente significa “ressurreição física”, então a primeira ressurreição deve ser física também. Um estudo do uso de ressurreição (ἀνάστασις), no NT daria também suporte a intepretação literal, visto que somente Lc 2.34 e Jo 11.25 são exceções. Também ζάω (viver), que aparece tanto no verso 4 como no 5, deve ser entendido literalmente.

 

Em contraste com a interpretação literal, devemos notar que ἀνάστασις (ressurreição) só aparece no apocalipse em 20.5-6. E a expressão “primeira ressurreição” não aparece em nenhum lugar do NT (ou no AT). Um estudo lexical das palavras que expressam as ideias de “primeira” e “segunda” deve ser realizado para compreendermos o significado de “ressurreição” no presente contexto[5]. Podemos adicionar o fato de que ζάω (vida) tem um fluxo variado de significado em Apocalipse e em outros lugares. Em apocalipse algumas vezes significa “ressurreição física” (1.18; 2.8), ou alguma forma generalizada de existência física (16.3; 19.20), mas geralmente tem uma conotação figurativa de existência espiritual, especialmente como atributo de Deus de eterna existência (6 ocorrências). Em 3.1 o verbo se refere a existência espiritual (provavelmente também em 7.17; 13.14)[6].

 

Devemos também notar que quando ἀνάστασις e ζάω (e seus sinônimos) aparecem dentro do mesmo contexto no NT, são usados alternadamente tanto para ressurreição física como para espiritual, como por exemplo, em Rm 6. 4-13 (cf. similarmente Rm 8.10-11; Jo 5.24-29)[7].

 

Entretanto isso não demonstra que esse é o significado em Ap 20.5-6, somente mostra que essas palavras podem ter esse duplo significado no mesmo contexto. Outros argumentos corroboram nosso ponto de vista, de que a primeira ressurreição se refere a “ressurreição espiritual” dos cristãos após a morte, ou o estado “intermediário”.

É evidente que a “segunda morte” do v. 6 se refere a alguma morte espiritual dos injustos, algo que envolve sofrimento eterno e consciente (20.10, 14-15). Por outro lado, a morte dos justos no v. 4 é uma morte física, literal. Portanto, existe a primeira morte física dos cristãs que é física, diferente da segunda morte dos ímpios, que é espiritual, e se existe essa diferença em relação a morte nesse contexto, é plausível que também exista na ressurreição.

Essa interpretação capta bem o pensamento do v.6, onde a primeira/eterna/espiritual ressurreição é a condição mínima para proteger alguém da segunda/eterna/espiritual morte.

No mínimo 4 objeções podem ser levantadas contra nosso argumento, e todas já foram habilmente respondidas (ver Beale, 1999), entretanto nosso espaço não permite a introdução do debate.

 

Conclusão.

 

Essa breve exposição de apocalipse 20.1-6 (de fato, uma crux interpretum), pontua para nós (in nuce) as seguintes considerações: 1. Os “mil anos” são simbólicos e não literais; 2. O milênio é inaugurado durante a era da igreja, i.e., entre os adventos de Cristo (Sua obra redentora e sua parúsia); 3. A inauguração do milênio resulta no aprisionamento de satanás, tirando-lhe o poder de enganar as nações para destruir o povo escatológico de Deus (a saber a igreja); 4. Com a inauguração do milênio, os cristãos mortos reinam com Cristo no céu, como sacerdotes e reis, onde estão totalmente protegidos da segunda morte.

Nossas conclusões fluem de um trabalho exegético maior (sumariado aqui). As demais “partes” dessa pequena série serão ponderações mais técnicas sobre a passagem que servirão como evidências cumulativas que corroboram nossas conclusões.

 

 

 

 

 

[1] Beale, G. K. (1999). The book of Revelation: a commentary on the Greek text (p. 995). Grand Rapids, MI; Carlisle, Cumbria: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Ibid.

[7] Ibid.

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2 thoughts on “A inauguração do Milênio: uma exposição de apocalipse 20.1-6 (parte II).

  1. Will, sabemos que Apocalipse é cheio de alusoes explicitas ao AT. Mas parece que Ezequiel desempenhou uma importantissima função na consciencia joanina ao escrever esse livro. Um erudito (não me pergunte quem) encontrou não menos do que 130 referencias separadas a esse profeta. Mas, muito alem de meras alusoes literarias a Ezequiel, parece que João o segue, passo a passo, quase como se Apocalipse fosse uma reescrita cristã de Ezequiel, sendo que sua estrutura fundamental é a mesma. Sendo assim, é natural considerar Ezequiel fundamental para interpretar a profecia de João. Considere alguns paralelos obvios:

    1. A Visão do Trono (Ap 4 / Ez 1)
    2. O Livro (Ap 5 / Ez 2 – 3)
    3. As Quatro Pragas (Ap 6.1-8 / Ez 5)
    4. Os Mortos Debaixo do Altar (Ap 6.9-11 / Ez 6)
    5. A Ira de Deus (Ap 6.12-17 / Ez 7)
    6. O Selo na Fronte dos Santos (Ap 7 / Ez 9)
    7. As Brasas do Altar (Ap 8 / Ez 10)
    8. Sem Mais Nenhuma Demora (Ap 10.1-7 / Ez 12)
    9. O Livro Sendo Comido (Ap 10.8-11 / Ez 2)
    10. A Medição do Templo (Ap 11.1-2 / Ez 40 -43)
    11. Jerusalém e Sodoma (Ap 11.8 / Ez 16)
    12. O Cálice da Ira (Ap 14 / Ez 23)
    13. A Vinha da Terra [Nação] (Ap 14.18-20 / Ez 15)
    14. A Grande Prostituta (Ap 17 – 18 / Ez 16, 23)
    15. O Lamento sobre a Cidade (Ap 18 / Ez 27)
    16. O Banquete das Aves (Ap 19 / Ez 39)
    17. A Primeira Ressurreição (Ap 20.4-6 / Ez 37)
    18. A Batalha com Gogue e Magogue (Ap 20.7-9 / Ez 38 – 39)
    19. A Nova Jerusalém (Ap 21 / Ez 40 – 48)
    20. O Rio da Vida (Ap 22 / Ez 47)

    Assim, quando eu olho para Ap 20-22, não posso deixar de notar o paralelo (na mesma ordem sequencial de eventos) com Ezequiel.

    – A ressurreição (Ez 37.1-13; Ap 20.4-6)
    – O milenio (Ez 37.24-24; Ap 20.6)
    – Gogue e Magogue (Ez 38-39; Ap 20.7-9)
    – a Nova Jerusalem (Ap 21-22; Ez 40-48)

    Sua abordagem do Milenio é interessante. Confesso que é uma passagem confusa para mim. Acredito que essa base de Ezequiel pode ajudar a criar algo mais solido.

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