A inauguração do Milênio: Uma exposição de Apocalipse 20. 1-6 (Parte I)

 

Introdução.

 

Existem três principais interpretações sobre o milênio, e todas elas com amplas variações que não serão catalogados aqui devido ao limite do nosso espaço. In nuce, temos: 1. O pré-milenismo, que entende a inauguração do milênio após a parúsia de Cristo; 2. O pós-milenismo, entende que o milênio ocorrerá no fim da era da igreja e que a vinda de Cristo será próximo ao fim do milênio, e; 3. O amilenismo, que entende que o milênio foi inaugurado com a ressurreição de Jesus, e terminará com sua vinda climática final (essa posição é mais bem representada pelo termo “milenismo inaugurado”, visto que “amilenismo” é muito vago) As duas últimas visões (Pós e Amilenismo) abordam apocalipse 20 de acordo com a interpretação simbólica do livro.

O propósito dessa pequena série de curtos artigos não é apresentar uma investigação exegética exaustiva da passagem proposta (isso requereria todo um livro), mas apenas pontuar algumas considerações exegéticas sobre o texto.

 

 

O milênio é inaugurado durante a era da igreja pela restrição Divina sobre a habilidade de satanás em enganar as nações e em aniquilar a igreja (20.1-3).

 

20.1 “Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente”. Essa chave é melhor entendida dentro do contexto do próprio livro de apocalipse. Essa chave do abismo provavelmente é a mesma que a chave da morte e do Hades que Cristo segura no capítulo 1, por ter derrotado a morte através da sua ressurreição (1.18). Assim, a chave figurativamente significa a Soberania de Cristo sobre o reino da morte. A mesma chave aparece novamente no capítulo 3, onde Cristo tem autoridade, não somente para ressuscitar os mortos no fim das eras, mas também de infundir vida espiritual na era presente[1]. Essa infusão de vida inclui a prevenção de que o maligno não iria mais enganar os membros da “sinagoga de satanás” na Filadélfia, para que eles conheçam a verdade e recebam vida espiritual  (3.7-9).

A soberania de Cristo sobre a esfera da morte é amplificada no cap. 6[2]. Quando Cristo abri o quarto selo, temos a representação de sua suprema autoridade durante sua primeira e segunda vinda, subordinando os poderes satânicos da “morte e do hades” (6.8). Da mesma forma, a chave do poço do abismo o cap. 9 representa a autoridade soberana de Deus sobre os poderes demoníacos que habitam no reino da morte (9.1-2)[3]. Esses poderes demoníacos foram limitados por Deus para não afetar aqueles que possuíam o “selo de Deus sobre a fonte”.

A chave do abismo em 20.1 é similar as chaves dos caps. 1, 3, 6 e 9, especialmente dos caps. 6 e 9, que retratam realidade durante a era da igreja. O abismo de 19.1-2 e 20.1 provavelmente é sinônimo de “morte e Hades” em 1.8 e 6.18. Como em 6.8 e 9.1-2, aqui em 20.1-3 o reino satânica está sob a autoridade de Cristo, mediada aqui por um anjo, e em 20.1 apenas o diabo está sob a autoridade do anjo. Assim o símbolo da chave nos caps. anteriores possui geralmente um sentido de sobreposição com o uso em 20.1, ainda que a aplicação em cada caso seja diferente[4].

20.2 “Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos”. O debate aqui flui quase ad infinitum. Entretanto, se a relação entre as chaves acima estiver correta (que diz respeito a realidades inter-adventos), então a prisão do diabo e o milênio deve ser melhor entendida como a suprema autoridade de Cristo restringindo o maligno de alguma maneira ao longo da era da igreja[5]. Assim a restrição de satanás é um resultado direto da ressurreição de Cristo. O aprisionamento, expulsão, queda, do diabo aparecem em outros lugares do Novo Testamento nos mesmo termos, e a derrota decisiva do diabo ocorre com a morte e ressurreição de Jesus (Mt. 12:29; Mc 3:27; Lc 10:17–19; Jo 12:31–33; Cl. 2:15; Hb. 2:14)[6]. Mais estritamente, o aprisionamento pode ter sido inaugurado durante o mistério terreno de Jesus (Mt. 12:29; Mc 3:27; Lc 10:17–19). O aprisionamento foi climaticamente inaugurado com a ressurreição de Jesus, e deve permanecer até (perto) sua segunda vinda. De fato, 20.7-9,marca o fim do aprisionamento imediatamente antes da vinda final de Cristo.

A questão é: Como exatamente esse aprisionamento deve ser definido? À luz de 1.18 e 3.7-8, podemos dizer que satanás não tem mais autoridade sobre o reino da morte, como tinha ante da ressurreição de Jesus, pois ele próprio está sob autoridade messiânica, desde que o Messias gloriosamente triunfou sobre a morte e sobre o diabo através de sua ressurreição[7].

20.3 “Lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo”. O verso 3 mostra especificamente a natureza do aprisionamento de satanás, i.e., “para que (ἵνα) não mais enganasse as nações”. Alguns argumentam que a prisão do diabo faz cessar absolutamente todas as suas atividades na terra. Entretanto, o aprisionamento (δέω) dele em Mc 3.27 (=Mt 12.29), não restringe todas as suas habilidades, antes, enfatizam a autoridade soberana de Jesus sobre ele. Portanto, o contexto e não a metáfora em si deve determinar o significado da prisão[8].

O diabo é expulso (ἐκβάλλω) pela morte de Cristo, mas isso não o restringe de todas as formas possíveis. Antes, isso o restringe de não permitir que as pessoas de toda a terra sejam atraídas para/por Jesus (Jo 12.31-32). O selo colocado sobre o diabo pode conotar encarceramento total, mas também pode conotar “autoridade sobre” (Dn 6.17). O selo de Deus sobre os cristãos não os protege de todas as formas, mas só os protege espiritualmente, salvíficamente, pois os cristãos sofrem perseguições físicas de muitas maneiras e até morrem por causa disso. O selo de Deus sobre Satanás o impede de prejudicar a segurança salvífica da verdadeira igreja, embora ele possa prejudica-la fisicamente[9].

Agora que a natureza do aprisionamento foi definida, outra questão precisa ser levantada: No que consiste o “enganar as nações”? Devemos olhar para o contexto novamente, e não para nossas especulações. Os versos 7-10 provê a resposta mais próxima, visto que o verso 7 começa onde o 3 termina. Em 20.7-10 o diabo é solto para seduzir as nações a fim de reuni-las para exterminar a comunidade do povo de Deus na terra[10]. Isso ocorrerá no fim da história, imediatamente antes do glorioso retorno de Cristo, que irá destruí-los com fogo.

Uma análise mais completa do restante das evidências no Novo Testamento, bem como o uso do Antigo Testamento aqui corrobora nosso ponto, entretanto, o espaço não permite tal análise.

 

 

 

 

 

 

[1] Beale, G. K. (1999). The book of Revelation: a commentary on the Greek text (p. 984). Grand Rapids, MI; Carlisle, Cumbria: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Ibid.

[7] Ibid.

[8] Ibid.

[9] Ibid.

[10] Ibid.

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