Agnosto theo: O agnosticismo e suas contradições.

 

O propósito deste artigo é analisar o Agnosticismo e verificar se há coerência (ou não) nesta visão filosófica.

Agnosticismo, termo cunhado por T. H. Huxley em 1869, vem de duas palavras gregas “α-γνοστος” (a-gnostos), que literalmente significa “não conhecimento”.

O agnosticismo ensina que certas reivindicações (esp. sobre a existência ou não de qualquer divindade) religiosas e metafísicas é desconhecida ou incognoscível. De um ponto de vista antropológico, essa visão ensina que a razão humana é incapaz de prover base racional suficiente para justificar a crença ou a não crença na existência de uma divindade.

Basicamente, há dois tipos de agnosticismo quando aplicado ao conhecimento de Deus, aqueles que declaram que a existência e a natureza de Deus são desconhecidas, e aqueles que sustentam que Deus é incognoscível[1]. Uma vez que o primeiro não elimina necessariamente todo conhecimento religioso, nosso foco estará no segundo tipo.

Cerca de um século antes de Huxley (1825-1895), os escritos de David Hume (1711-1786) e Immanuel Kant (1724-1804) estabeleceram as bases filosóficas para o agnosticismo.

Grande parte da filosofia moderna pressupõe a validade geral dos argumentos estabelecidos por eles, portanto, uma breve análise desses pensadores se faz necessária.

 

O Ceticismo de David Hume.

 

Até mesmo Kant era racionalista até ser “despertado do seu sono dogmático” lendo os escritos de Hume. No sentido técnico, Hume é cético, mas é usado para fins agnósticos. O raciocínio de Hume é baseado em sua afirmação de que existem apenas dois tipos de afirmações significativas[2]:

 

“Se pegarmos em nossas mãos qualquer volume, de teologia ou metafísica escolástica, por exemplo, isso contém qualquer raciocínio abstrato a respeito de quantidades ou números? Não. Será que ela contém algum raciocínio experimental relativo a questão de fato e existência? Não. Jogue-os às chamas, pois não podem conter nada além de sofismas e ilusões ” (Enquiry Concerning Human Understanding – Tradução do autor).

 

Qualquer declaração que não seja puramente relacionada a ideias (definicional ou matemático) ou uma questão de fato (empírico ou factual) é sem sentido[3]. Logo, toda e qualquer declaração sobre Deus cai fora dessas duas categorias, tornando o conhecimento de Deus uma impossibilidade.

 

Atomismo empírico.

Todas as sensações são experimentadas como “totalmente soltas e separadas”. Conexões causais são feitas pela mente unicamente após fazer observações de conjuntos constantes de coisas em experiência[4]. Tudo o que alguém experimenta é fruto de sensações desconexas e separadas. Portanto não há conhecimento direto, nem mesmo do próprio eu, pois todo conhecimento que temos de nós mesmos não passam de impressões desconexas. Partindo da experiência, não pode haver conexões conhecidas, nem conexões necessárias[5]. Todas as questões experimentais implicam na possível realidade que lhe é contrária[6].

 

Causalidade baseada no costume.

Segundo Hume, “todo raciocínio relativo a questões de fato parece ser fundamentado na relação de causa e efeito […] Só por meio dessa relação podemos ir além da evidência da nossa memória e dos nossos sentidos” (Hume iv, p. 2)

Causa e efeito nunca é a priori, mas sempre contingente a experiência, assim sempre havendo a possiblidade da falácia post hoc, i.e., certas coisas acontecem antes de outras, sem que necessariamente seja causada por elas, por exemplo, o sol nasce depois que o galo canta, mas não porque o galo canta[7]. Portanto, segundo Hume, não é possível conhecer conexões causais, e sem sabermos a causa deste mundo, somos necessariamente entregues ao agnosticismo em relação a Deus.

 

Conhecimento por analogia.

Ainda que possamos pressupor que todos os eventos são causados, não podemos conhecer essa causa. No seu famoso “Diálogos sobre a religião natural”, Hume afirma que a possível causa do universo pode ser: 1. Diferente da inteligência humana, pois as invenções humanas são diferentes da natureza; 2. Finita, já que o efeito é finito; 3. Imperfeita, já que existe imperfeições na natureza; 4. Múltipla, pois a criação do mundo parece mais com tentativas e erros de múltiplas divindades em cooperação; 5. Masculina e feminina, já que os humanos são gerados assim e; 6. Antropomórficas, com olhos, nariz, mãos (etc) assim como as criaturas[8]. Logo a analogia nos deixa a deriva do ceticismo em relação a possível causa do universo.

 

O agnosticismo de Kant.

Kant subscrevia uma forma de racionalismo, onde o teísmo poderia ser racionalmente demonstrável, porém, após ler as obras de Hume, Kant mudou de posição.

 

A impossibilidade de conhecer a realidade.

Kant sustentava (segundo a tradição de Leibniz) que todo conhecimento é incontingente a experiência. Por outro lado, Kant concordava com Hume (e outros empiristas) que o conteúdo de todo conhecimento era adquirido somente através dos sentidos. Assim, os sentidos produziam a matéria prima do conhecimento, mas a estrutura do conhecimento é adquirida posteriormente na mente[9].

Essa miscelânea sintética convenientemente resolvia as tensões entre o racionalismo e o empirismo. Infelizmente o filho dessa amálgama é o agnosticismo, já que é impossível conhecer antes que o próprio conhecimento seja estruturado pela sensação (tempo e espaço), e pelas categorias do conhecimento (p. ex. unidade e causalidade), não há como ir de forma ontologicamente alheia a nós mesmos para conhecermos a realidade antes de a termos assim formada. Portanto, a realidade é relativa, pois uma pessoa só pode saber sobre algo para si própria e nunca o que de fato é, ou seja, só sabemos que algo existe, mas nunca sabemos o que de fato é (Kant p.173).

 

As antinomias da razão.

Além de haver um abismo intransponível entre a ontologia (ser) e a epistemologia (conhecer), entre as categorias de conhecimento e a essência da realidade, contradições irremediáveis aparecem quando tentamos atravessar tal abismo (Kant p.393), como por exemplo, a antinomia da causalidade. Uma vez que tudo é causado, não pode haver uma causa inicial, e séries causais devem começar no infinito. Mas é impossível que a série seja infinita e tenha um começo[10]. Esse é o paradoxo que se levanta quando aplicamos a categoria da causalidade à realidade.

Não exauri o arsenal argumentativo dos agnósticos, mas esses argumentos formam a base para a afirmação “Deus não pode ser conhecido”.

 

A lógica do Agnosticismo.

Há duas formas de Agnosticismo. A forma “fraca” simplesmente afirma que Deus é desconhecido. Isso abre a possibilidade de se conhecer a Deus e torna possível que alguns conheçam a Deus[11]. Esse tipo de agnosticismo não constitui uma ameaça para o teísmo cristão. A forma mais forte de agnosticismo afirma que Deus é incognoscível, tornando-se incompatível com o cristianismo.

Outra divisão existe entre agnosticismo ilimitado e limitado. O primeiro afirma que tanto Deus como toda realidade são incognoscíveis. O segundo apenas afirma que Deus é parcialmente incognoscível devido a finitude e pecado humanos. Essa segunda forma pode ser admitida pelos cristãos como possível.

Basicamente, isso coloca diante de nós três alternativas sobre o conhecimento de Deus:

  1. Não podemos saber nada sobre Deus, pois Ele é incognoscível.
  2. Podemos saber tudo sobre Deus, pois Ele pode ser conhecido plenamente.
  3. Podemos saber alguma coisa, mas não tudo, pois Deus é parcialmente cognoscível.

A primeira opção é agnosticismo, a segunda é dogmatismo e a terceira é realismo. O dogmatismo é improvável, pois um ser precisa ser infinito para conhecer plenamente outro seu infinito. A fé cristã apenas encontra problemas com o agnosticismo ilimitado extremista.

 

A autocontradição do agnosticismo completo.

O agnosticismo ilimitado é autodestrutivo, reduzindo-se ao absurdo. Conhecer o suficiente sobre a realidade para afirmar que nada pode ser conhecido obre ela é uma contradição explícita. Quem conhece algo sobre a realidade não pode afirmar que nada pode ser conhecido dela. Quem afirma não conhecer absolutamente nada sobre a realidade não tem fundamento objetivo para fazer qualquer declaração sobre a realidade[12].

Não é satisfatório simplesmente afirmar que todo o conhecimento da realidade limita-se as declarações cognitivas negativas, i.e., só podemos dizer o que a realidade não é, pois todo negativo tem seu contraponto positivo. Assim, não tem como categorizar algo como mero negativo sem possuir um conhecimento sobre o objeto. Portanto, o agnosticismo total derrota a si mesmo ao pressupor algum conhecimento da realidade para negar todo o conhecimento sobre ela.

Transformar o ceticismo em questionamento para evitar o dilema apenas o adia. Assim alguns agnósticos questionam: O que eu sei sobre a realidade? Tanto cristãos como agnósticos precisam responder a essa questão. Entretanto a afirmação “eu posso conhecer alguma coisa sobre Deus” é bem diferente de dizer “eu não posso conhecer nada sobre Deus”, esta última é uma contradição.

Alguns irão afirmar que a realidade finita é cognoscível, mas a realidade infinita não. Assumindo essa posição, já não se tem o agnosticismo completo, pois afirma-se que algo pode ser conhecido da realidade. Isso nos abre as portas para discutirmos se a realidade é finita ou infinita, pessoal ou impessoal, debate este que vai além dos limites desse artigo, bem como além do debate agnosticismo versus teísmo.

 

A falha do agnosticismo de Kant.

O argumento de Kant, de que categorias de pensamento (como unidade e causalidade) não se aplica a realidade também é falho.

Ao menos que as categorias da realidade correspondesse as categorias da mente, nenhuma afirmação poderia ser feita sobre a realidade, nem mesmo as afirmações de Kant. A não ser que o mundo real fosse inteligível, nenhuma afirmação sobre ele se aplicaria[13]. Segue-se necessariamente uma pré-formação da mente à realidade para se falar algo sobre ela (positivo ou negativo), caso contrário, estaríamos falando de uma realidade inimaginável.

Alguns irão afirmar que os agnósticos não precisam fazer afirmações sobre a realidade, mas apenas definir os limites do que podemos conhecer. Novamente, temos uma declaração contraditória. Dizer que alguém não pode dizer mais do que os limites do fenômeno e da aparência é como tentar desenhar uma linha na areia com as duas pernas juntas. Estabelecer limites firmes é sinônimo de ultrapassá-los. Como alguém pode saber a diferença entre realidade e aparência se não viu o suficiente da realidade e da aparência para fazer a comparação[14]?

Kant novamente dá outro passo para o mundo da contradição ao dizer: “O número existe, mas não se sabe o que é”. Será mesmo possível conhecer que algo existe sem saber nada sobre ele?

Quando se afirma que algo existe, é porque foi observado, pois se não foi observado não se poderia fazer tal afirmação. Para ser observado, mesmo que uma criatura estranha, foi preciso ter deixado alguma característica reconhecível como tamanha, cor e movimento. Mesmo algo invisível deve deixar algum efeito/vestígio para ser observado. Não é preciso conhecer a origem ou a função de um objeto para saber que ele existe. Tudo isso são afirmações sobre a realidade.

 

Conclusão.

Assim como os Atenienses do século 1 (Atos 17), alguns ainda levantam altares para um deus desconhecido (αγνοστω θεω). Como vimos nesse breve artigo, existem dois tipos de agnosticismo: o limitado e o ilimitado. O primeiro é compatível com as declarações cristãs sobre o conhecimento finito do Deus infinito. Porém o segundo é autodestrutivo. Implica conhecimento sobre a realidade para negar a possibilidade de sua (da realidade) existência[15].

O agnosticismo ilimitado não passa de uma forma de dogmatismo. Ao negar a possibilidade de qualquer conhecimento sobre o que é real, acaba caindo no extremo oposto da outra posição que afirma o conhecimento total e exaustivo sobre a realidade. Ambas as posições são dogmáticas, sendo o agnosticismo um dogmatismo negativo (o que pressupõe seu positivo). O agnosticismo ilimitado não é apenas autodestrutivo, mas também é autodivinizador. Para um ser se enquadrar plenamente nesse tipo de agnosticismo, necessita implicitamente do atributo noético da onisciência. Portanto, somente uma mente onisciente poderia optar pelo agnosticismo ilimitado e obviamente homens finitos não possuem tal mente.

Concluímos que a porta permanece aberta para algum conhecimento sobre a realidade, pois ela não é incognoscível.

 

 

Bibliografia:

 

A. Flew. Theology and falsification

B. Lightman, The Origins of Agnosticism: Victorian Unbelief and the Limits of Knowledge, 1987.

David Hume, Investigação sobre o entendimento humano.

_______ Diálogos sobre a religião natural.

Collins. God in modern philosophy.

J. Deweese e J. P. Moreland. Filosofia Concisa (Vida Nova, Sp. 2011)

Spencer, First Principles (1862)

[A.] Passmore, A Hundred Years of Philosophy (1957; 2nd edn., 1966).

Ward, Naturalism and Agnosticism (*Gifford Lectures for 1896–8; 2 vols., 1899; 2nd edn., 1903

Stephen, An Agnostic’s Apology and other Essays (1893)

L. Geisler, (1999). Em Baker encyclopedia of Christian apologetics; Grand Rapids,

A. Armstrong, Agnosticism and Theism in the Nineteenth Century (1905)

MI: Baker Books

C. Sproul, Filosofia para iniciantes; (Vida Nova, SP, 2012).

Flint, Agnosticism (1903)

S. Hackett. The resurrection of theism

Notas.

[1] Geisler, N. L. (1999). Em Baker encyclopedia of Christian apologetics (p. 16-17). Grand Rapids, MI: Baker Books.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Ibid.

[7] Cf. Ibid.

[8] Ibid.

[9] Ibid.

[10] Ibid.

[11] Ibid.

[12] Ibid.

[13] Ibid. p. 18.

[14] Ibid.

[15] Ibid.

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