Adão e Cristo: uma exposição de Romanos 5. 12-21 (parte 1/2)

Por: Willian Orlandi

É evidente que há uma estreita conexão entre 5.1-11 e 5.12-21. Em ambas essas seções, o pensamento realçado é que a salvação, no tempo e na eternidade, é por meio de Jesus Cristo [1].
Segundo 5.1-11, é por meio dele que os crentes têm sido justificados e reconciliados com Deus. A esta ideia de certeza da salvação por meio de Cristo,Paulo agora, nos versículos 12-21, acrescenta o pensamento de que a graça é muito mais que uma mera compensação do pecado. Não só nulifica os efeitos do pecado, mas também outorga a vida eterna.

Paulo pinta o quadro da história da redenção usando como tela a própria história da humanidade com um escopo universal. Não encontramos nesse parágrafo nenhuma dicotomia entre judeus e gentios, mas ambos se encontram na categoria “ser humano”. A perspectiva é corporativa em vez de individual [2].

Toda a humanidade está em um relacionamento com um de dois homens. Aqueles que pertencem a Adão estão debaixo da sentença de morte por causa de seu (de Adão) pecado ou desobediência, e aqueles que pertencem a Cristo possuem segurança da vida eterna por causa de Sua (de Cristo) justiça, ou obediência [3].
Em algum sentido, os atos de Adão e de Cristo são similares e possuem uma importância histórica. Mas não são iguais em poder porque o ato de Cristo triunfa completamente sobre os efeitos do ato de Adão [4].

O tema dominante nesse parágrafo é o poder do ato de obediência de Cristo que sobrepuja o ato de desobediência de Adão. Uma pergunta importante aqui seria: Qual é a relação desse tema com o resto da carta? As respostas tem sido variadas. Uns argumentam que essa passagem é o centro dessa carta enquanto outros dizem que ela é uma mera digressão. As vezes um parágrafo possui maior conexão com o que precede, e as vezes com o que sucede. Esse parágrafo possui ambos. A bem enfatizada justificação assegurada por Cristo, em contraste com a condenação introduzida por Adão (v. 18-19), trás de volta o tema central de 1.18-4.25, particularmente que a justificação está disponível para “todos os que creem” (3.22) [5]. Igualmente, alguns temas introduzidos em 5.12-21, como graça, morte e o pecado como um poder reinante, a estrutura corporativa de “em Adão” e “em Cristo”, são precisamente aqueles temas que dominarão os capítulos 6-8 [6].

A argumentação nesse parágrafo parece um tanto desconexa porque Paulo inicia com uma comparação no verso 12 que ele não termina. Em vez disso, ele expande a primeira parte de sua comparação, o pecado de Adão (12d-14), e no final do verso 14 ele afirma que Adão é um tipo de Cristo. Paulo estabelece uma série de contrastes entre Adão e Cristo (v. 15-17), e finalmente, nos dois últimos paralelos estabelecidos (18-19), a comparação completa está concluída [7]. No verso 20 Paulo fala sobre a lei (pois um judeu cristão poderia dizer que Paulo havia esquecido do Sinai, um dos eventos mais importantes na história da salvação) e o verso 21 traz um triunfante sumário e conclusão, onde a nota final novamente é cristológica: “mediante Jesus Cristo, nosso Senhor”.

Iremos agora analisar verso por verso desse parágrafo, a fim de entendermos, com maior precisão possível, o ensino de Paulo aqui.

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. (Rm 5.12 – ARA)

Esse parágrafo inicia com a palavra “Portanto”, o que indica que Paulo está concluindo algo que ele havia começado anteriormente. Há um relacionamento natural entre esse parágrafo e o anterior [8]. Podemos parafrasear dessa maneira: Deus prometeu salvar totalmente aqueles que foram justificados e reconciliados através de Jesus Cristo, e para completar isso, existe uma união vital entre Cristo e aqueles que pertencem a Ele que é similar, porém vastamente mais poderoso que a união mortal entre Adão e todos os que pertencem a Ele.

A sentença inicia com “assim como” [9]. A entrada do pecado no mundo é atribuída a um homem, que obviamente é Adão. Paulo atribui ao pecado a função ativa de reinar (o pecado também pode ser obedecido (6.16-17), assalariado (6.23), tomar ocasião (7.8), enganar e matar (7. 11, 13). Em outras palavras Paulo personifica o pecado, retratando-o como um poder que assola o mundo que está sem Cristo, trazendo desastre e morte para toda a humanidade [10].
Os escritos judaicos contem paralelos com a interpretação de Paulo sobre a queda de Adão, especialmente os escritos apocalípticos 4Esdras [11] e 2Baruque.
No entanto, entendimento de Paulo acerca do pecado é bem mais radical que o deles, tanto com respeito a origem da transgressão de Adão, quanto aos seus efeitos sobre a raça humana [12].

A expressão seguinte, “por um só homem entrou o pecado no mundo”, não seria novidade para ninguém que conhecesse o A.T. ou a tradição judaica. O mesmo pode ser dito da asserção seguinte, “e pelo pecado a morte”. A inquebrável união entre o pecado e a morte também está claro em Gn 2-3 [13].
Mas o que exatamente Paulo que dizer com o termo morte aqui [14]? Paulo poderia estar se referindo apenas a morte física, pois parece ser esse o significado no verso 14. Porém, adiante Paulo contrasta a morte com a vida eterna (v. 21). Além do mais, nos versos 16 e 18 Paulo usa a palavra condenação com o mesmo sentido de morte [15]. Isso sugere que Paulo esteja falando sobre a morte “espiritual”, ou seja, a alienação de Deus resultante do pecado, que se não for curada por Cristo, levará inevitavelmente à morte eterna.

No entanto, nós não somos forçados a fazer uma escolha entre essas opções. Paulo frequentemente usa “morte” e as palavras relacionadas para designar uma entidade “físico-espiritual”, uma “morte-total”, a penalidade que decorre do pecado [16]. A morte física é uma evidencia, uma manifestação externa da realidade dessa “morte-total”, ou melhor, como a maioria dos comentaristas expõe, Paulo pode ter em mente ambos os aspectos físicos e espirituais dessa morte [17].
Após falar sobre a entrada da morte como consequência do pecado, Paulo deixa claro que essa morte se espalhou para cada pessoa individualmente (12c) [18]. A expressão “assim também” é uma comparação entre a maneira pela qual a morte veio ao mundo – através do pecado – e a maneira pela qual a morte passou a todos os homems – através do pecado também [19]. Como Douglas Moo demonstra, o verso 12 é um nítido quiasmo balanceado:

A Pecado (12a) produz
B.Morte (12b)
B Todos morreram (12c)
A Porque todos pecaram (12d) [20]

Se essa estrutura estiver correta, então 12d tem como propósito mostrar que a morte é universal porque o pecado é universal [21]. A morte encontrou seu passaporte de entrada nesse mundo através do pecado de Adão, que tem levado à morte todas as pessoas, e de fato, todas as pessoas morrem, porque todas pecaram. Em certo sentido a preocupação de Paulo nesse verso ( e nessa passagem) não é tanto com o “pecado original”, mas sim com a “morte original” [22]. O nexo causal entre pecado e morte, demonstrado no caso de Adão, tem se repetido em cada ser humano. Ninguém escapa do reino da morte pois ninguém escapa do poder do pecado [23].

Mas não podemos parar por aqui, precisamos dar um passo além. Nesse verso Paulo fala sobre a universalidade do pecado após falar sobre a responsabilidade de Adão pela entrada do pecado no mundo, isso nos leva a perguntarmos: Qual é a relação do pecado de Adão com os nossos pecados? Ou em outras palavras, por que todas as pessoas, sem exceção, pecam? Essa questão se torna ainda mais apropriada nos versos 18 e 19, onde o foco de Paulo está no pecado de Adão como a causa para a condenação universal [24]. Como é possível que o pecado de Adão trouxe eterna condenação para mim, minha família e de fato, toda a humanidade? Questões dessa natureza nos forçam a olharmos com mais cuidado o que Paulo quis dizer com “todos pecaram” em 12d.

À primeira vista, essas perguntas nos parecem fácil de responder. Frequentemente Paulo usa a palavra “pecado” para designar atos pecaminosos pessoais de cada indivíduo. Ou seja, todas as pessoas cometem pecado. Provavelmente a maioria dos teólogos contemporâneos entendem esse verso dessa maneira (assim como Rm 3.23). A morte passou a todas as pessoas pelo exato motivo de todas cometerem seus próprios pecados individuais.
Mas isso nos leva a outra pergunta lógica: Como nós podemos logicamente relacionar as asserções “cada pessoa morre por causa dos pecados individuais da pessoa (no curso da história)” e “um homem transgride e traz condenação para todas as pessoas” (v. 18) [25].

Alguns se contentam em deixar não resolvida a tensão dos aspectos individuais e corporativos. Esses dizem que é o trabalho de um teólogo sistemático achar a solução desses problemas, mas “nós” os exegetas temos que conviver com isso. É claro que nós erramos em tentar achar e forçar uma solução para tudo nas Escrituras, mas também falhamos miseravelmente em não perseguirmos harmonizações razoáveis que o autor assume ou pretende. Então é legítimo perguntarmos se Paulo sugere alguma resolução para a tensão entre a responsabilidade adâmica e a pessoal em relação ao pecado nesse texto [26].

Uma explanação popular sustenta que Paulo assume uma espécie de “meio termo” na conexão entre o pecado de Adão e a condenação de todos os seres humanos, que seria a corrupção da natureza humana [27]. A expressão “todos pecaram” no verso 12 se refere aos pecados individuais cometidos ao longo da história, mas como um resultado necessário da corrupção da natureza humana herdada de Adão. A morte, portanto, decorre imediatamente do pecado individual, mas ultimamente do pecado de Adão [28]; pois foi o pecado de Adão que corrompeu a natureza humana fazendo o pecado individual uma inevitabilidade.

Existem muitos pontos positivos nessa visão, porém ela precisa ser melhorada e expandida. Um resumo apropriado seria: A transgressão de um único homem resultou na corrupção da natureza humana, o que levou todas as pessoas a pecarem, e portanto trouxe condenação para todos os homens. É possível que Paulo quisesse que nós assumíssemos essas adições, e ele nos deu uma pequena base para isso [29].

Devemos ler 12d à luz dos versos 18 e 19. As cláusulas comparativas desses dois versos repetem a substância do verso 12, o que parece ser uma procedência legítima. “Todos pecaram” ecoa certo sentido corporativo: Pecar, não como um ato voluntário pessoal, mas pecar “em e com” Adão [30]. O pecado aqui em 12d atribuído a “todos”, deve ser entendido à luz de 12a-c e 15-19, como o pecado que de alguma maneira é idêntico ao pecado cometido por Adão [31].

Desta maneira, Paulo pode dizer tanto que “todos morrem porque todos pecam” como também “todos morrem por causa do pecado de Adão”, sem nenhum impedimento porque o pecado de Adão é o pecado de todos [32].

Portanto, todas as pessoas estão condenadas “em Adão”, culpadas do pecado que todas cometeram “nele” [33].
Admito que para interpretarmos a expressão “todos pecaram” de 12d como significando que todos “pecaram em e com Adão” precisamos totalmente dos versos 18 e 19. Talvez não devêssemos “forçar” tanto quando Paulo não pretende dizer isso. Entretanto mais um argumento acumula para a corroboração de nossa interpretação, a saber, a popularidade dos conceitos de solidariedade corporativa no mundo judaico dos dias de Paulo [34]. Esse conceito tem suas raízes no Antigo Testamento e um exemplo clássico disso está em Josué 7. O pecado cometido por um indivíduo Acã, fez com que os “filhos de Israel prevaricassem nas coisas condenadas” (Js 7.1).
O texto diz que Israel pecou (verso 11) e que “a ira do Senhor se ascendeu contra os filhos de Israel”, por causa do pecado de Acã. As ações de certos indivíduos possuem um caráter representativo, sendo atribuído como atos de vários outros indivíduos ao mesmo tempo (outros exemplos claros são percebidos em quando um rei de Israel pecava o povo todo sofria). O exemplo mais próximo na literatura judaica posterior está em 2 Esdras 7. 118: “Ó Adão, o que fizestes? Pois embora sejas tu quem pecou, a queda não foi só tua, mas também nossa, que somos teus descendentes” (embora eu precise dizer que a ideia de pecado corporativo em Adão nunca foi explicita no judaísmo).
Temos bons motivos para pensarmos que Paulo adotou esse conceito tão importante no pensamento judaico para explicar o significado de Adão e Cristo na história da redenção. Para Paulo, Adão assim como Cristo, é uma figura corporativa, cujo pecado é atribuído a todos os seus descendentes.

Mais um ponto merece nossa breve atenção: a questão da justiça. Ecoando as palavras do teólogo alemão W. Pannenberg [35], como é possível sermos responsabilizados pelo ato de outro, cometido a várias gerações atrás em condições radicalmente diferentes da minha? Várias construções teológicas e filosóficas podem ajudar ou piorar esse problema. O pecado original continua sendo uma ofensa para a razão do homem caído. Porém é uma doutrina necessária para explicarmos a universalidade do pecado e do mal [36]. Termino a explanação desse verso e dessa questão de justiça com as palavras de Blaise Pascal sobre o assunto:

“Pecado original é loucura para o homem, mas é compreensível ser assim. Você não deve me reprovar por querer “razão” nessa doutrina, desde que eu admita que ela não tenha razão. Mas essa loucura é mais sábia que toda a sabedoria dos homens. Sem isso, como podemos explicar o que o homem é? Todo o seu estado depende desse ponto imperceptível. E como isso pode ser percebido pela sua razão, sendo isso algo que vai contra a razão, e desde que a razão, longe de encontrar isso por si mesma, tem aversão a isso quando é apresentada a ela?[37]”.

Como explicar o ódio, a degradação e a loucura que caracteriza a humanidade em toda a sua história? Paulo afirma nessa passagem que a solidariedade humana com o pecado de Adão é a resposta para isso. Quer nós interpretemos essa solidariedade em termos de pecar “em e com” Adão, quer seja por causa de uma natureza corrupta herdada dle, em ambos os casos, isso explica a universalidade da pecaminosidade humana melhor do que qualquer teoria rival .
[38]

“Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei” (Rm 5.13).

Uma vez que o pecado conseguiu entrada na família humana, seguiu-se a morte. A sentença passada contra Adão, “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17), foi executada em seus descendentes, embora — enquanto não foi dada a lei — não houvesse um mandamento positivo a ser transgredido, como havia para Adão [39]. O regime da lei aqui é explicitamente a lei mosaica dada no Sinai. As pessoas que viveram antes de Moisés não tinham a lei dessa forma específica e concreta. Se assim for, como elas poderiam ser julgadas dignas de morte? Porque elas pecaram em e com seu pai Adão. Mas à luz de Rm 1.18-3.20, será que Paulo considerava os pecados dessas pessoas pré-mosaicas como não merecendo condenação per si? Paulo mostrou que a vinda da lei fez com que o pecado fosse uma coisa mais séria, mais “digna” de morte (cf. 3.20; 4.15; 5.20; 7. 7-12). Aquelas pessoas cometeram pecados pessoal e conscientemente, mas não da mesma maneira que Adão, ou seja, não transgredindo um mandamento expresso, mas mesmo assim, carregaram a sanção da morte [40].
Portanto, é óbvio que, mesmo durante o período de Adão à Moisés, o pecado foi de fato levado em conta. Embora a lei do Sinai com seus mandamentos expressos, ainda não existisse, havia lei (Rm 2.14-15) [41].

“Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir” (Rm 5.14).

Adão e Israel foram confrontados diretamente com a lei explícita. Mas mesmo sobre as pessoas que viveram nesse intermediário “reinou a morte”. Morte aqui se referindo a morte física, mas o aspecto espiritual está presente como no verso 12. Paulo resume seu foco principal no argumento com a última frase do verso 14: “…o qual prefigurava aquele que havia de vir”.
A palavra prefigurar, para ser mais exato, “tipo”, são aquelas pessoas, instituições ou eventos no Antigo Testamento que tem uma função divinamente pretendida de prefigurar a era escatológica inaugurada por Cristo [42].
É nesse sentido que Adão é um “tipo” de Cristo. A palavra grega “τυπος” (tipos), que basicamente significa impressão, forma, padrão ou exemplo, aparece em apenas 4 lugares no A.T. (LXX), e traduz as palavras hebraicas “rabinît” (Ex 25.40), original, modelo, e selem (Am 5.26), imagem, ídolo. Aqui em Romanos 5.14, Adão e Cristo são comparados e contrastados pela sua relevância e eficácia para “todos” [43].
O impacto universal do único ato de Adão prefigurava o impacto universal do ato único de Cristo. “Aquele que havia de vir” provavelmente ecoa a tradição judaica da época que designava o Messias como “aquele que viria”, e está no futuro porque possivelmente Paulo esteja observando a obra de Cristo com a perspectiva de Adão [44].

“Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos” (Rm 5. 15).

Nos versos 15-21 Paulo irá explicar a relação tipológica entre Adão e Cristo. O que é similar entre os dois é o fato de que o ato de cada um trás drásticas consequências para os que “pertencem” a eles. Os versos 15-17 apresentam basicamente dois contrastes entre o ato de Adão e o de Cristo.
O primeiro contraste é de nível ou de grau. O ato de Cristo, sendo uma manifestação da graça Divina, é vastamente maior, de todas as maneiras, ao ato de Adão (verso 15).
O segundo contraste é de consequência. O ato de Adão trouxe condenação (16b) e morte (17a), enquanto o de Cristo trouxe justiça (16b) e vida (17b).
Paulo chama o pecado de Adão de “ofensa” para contrastar com a palavra “dom”. “Porque se pela ofensa de um só, morreram muitos”, esse “muitos” dessa prótese significa um “grande número”. Mas esse grande número já está determinado no verso 12, ou seja, todos, por causa do pecado de Adão, todos morreram. Mas o “muitos” da apodóse “… muito mais a graça de Deus … foram abundantes sobre muitos”, é qualificado por Paulo no verso 17, que são somente aqueles que receberam o dom do benefício provindo ao ato de Cristo.
Para Paulo, se a morte daqueles que estão em Adão é garantida, aqueles que estão em Cristo desfrutaram a graça e o dom com muito mais certeza (Cf. o “muito mais” do verso 15).

“O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação” (Rm 5.16).

Na primeira parte desse verso (16a), Paulo fala sobre o segundo contraste entre o ato de Adão e o ato de Cristo, e o explica nos versos 16b-17.
“Em que somente um pecou” não faz o contraste apropriado com o “dom” do início do verso. Para entendermos apropriadamente, precisamos fazer uma paráfrase, onde o que vem a seguir, a saber, a “condenação”, se encaixa melhor no contexto. Então temos: “O dom, entretanto, não é como a condenação que veio através do pecado de somente um”.
Paulo tinha os dois contrastes em mente. Primeiramente eram os resultados do ato de Adão e do ato de Cristo, isto é, condenação versus justificação. Em segundo lugar era o número de pecados levados em conta. O veredito judicial associado ao ato de Adão veio através de um pecado somente. O decreto da justificação que veio através de Cristo veio após um número incontável de pecados [45].

Concluímos que não apenas os resultados do ato de Adão e do ato de Cristo são diametralmente opostos, como a morte é aposta a vida, ma também, a graça de Deus em Cristo se tornou majestosamente mais evidente, quando se leva em conta o número de pecado respectivo a cada ação. Como belamente Cranfield expressa: “Que um único erro de alguém deveria ser respondido com julgamento, é perfeitamente compreensível: que o acumulo do pecado e da culpa de todas as eras deveria ser respondido com o livre dom de Deus, esse é o milagre dos milagres, muito além da compreensão humana”.

[1] William Hendriksen, “Comentário de Romanos”, p. 233.
[2] Douglas Moo, “The epistle to the Romans”, NICNT, p. 315.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Ibid.
[7] Ibid.
[8] O debate acadêmico sobre isso é vasto demais para tratarmos aqui.
[9] Normalmente introduz uma prótese de uma sentença comparativa.
[10] Moo, Romans, p. 319.
[11] Em 4Esdras a origem do pecado é repelida e relativizada pela ideia de que um coração maligno já estava presente em Adão quando ele caiu em transgressão.
[12] Mark A. Seifrid, “Romanos”, em “O comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento”, org. G. K. Beale e D. A. Carson, p. 785.
[13] Moo, p. 320.
[14] Gr. Θανατος (tanatos) ocorre 5 vezes nessa passagem e o verbo cognato aparece 2 vezes.
[15] Ibid.
[16] Ibid.
[17] Ibid.
[18] A palavra grega é “διηλθεν”, na qual o “diá” possui força distributiva.
[19] Ibid.
[20] Ibid.
[21] Ibid.
[22] Ibid.
[23] Ibid.
[24] Ibid.
[25] Ibid.
[26] Ibid. p. 325.
[27] Teólogos como Lutero e Calvino acreditavam que “todos pecaram” (12d) significa apenas que todas as pessoas existem em um “estado pecaminoso”, visão pouco defendida em nossos dias.
[28] Ibid.
[29] Ibid.
[30] Isso não é o mesmo que adotar a tradução “em Adão”.
[31] Ibid. p. 326.
[32] Ibid.
[33] Ibid.
[34] Ibid. p. 327.
[35] Anthropology, p. 124.
[36] Moo, romans, p. 329.
[37] Pensées #445.
[38] Moo, p. 329.
[39] F. F. Bruce, “Romanos, introdução e comentário”, p. 67.
[40] Moo, “Romans”, p. 331.
[41] William Hendriksen, “Romanos”, CNT, p. 237.
[42] Moo, “Romans”, p. 334.
[43] H. Muller, “τυπος”, em DITNT, p. 2519.
[44] Moo, p. 334.
[45] Ibid., p. 338.

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