Habitação de Deus: A igreja como templo escatológico nas cartas de Paulo (Parte 2/2)

Após analisarmos o pano de fundo veterotestamentário desse tema, quando nos voltamos especificamente para a teologia de Paulo, fica claro que para ele, a vida do Espírito satisfaz três tipos de expectativas: 1) A associação do Espírito com a nova aliança; 2) a linguagem da habitação; 3) A associação do Espírito com o templo [1].
Cumprindo a nova aliança e a renovação do templo, O Espírito é o meio pelo qual Deus se faz presente nesse mundo.

A habitação do Espírito.

Para Paulo, O Espírito habita tanto “em” como “entre” o povo de Deus. Paulo diz que O Espírito habita “em vós/nós” (1Ts 4.8; 1Co 6.19; 14.24-25; Ef 5.18). Esse local “em vós/nós” é o coração (2Co 1.22; 3.3; Gl 4.6; Rm 2.29; 5.5). Veremos que a habitação do Espírito é tanto coletiva como individual.

A igreja como o templo de Deus.

Paulo usa a figura do templo para designar O Espírito como a renovada presença de Deus entre Seu povo. Essa figura aparece 4 vezes em Paulo, 3 delas mantém relação com o Antigo Testamento:

1Co 3.16-17
“16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? 17 Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”.

2Co 6.16-18

“16 Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. 17 Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras; e eu vos receberei, 18 serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso”.

Ef 2. 20-22

“20 edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; 21 no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 22 no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito”.

Cristãos individuais como o templo de Deus.

Em 1Co 6. 19-20, Paulo faz a surpreendente transferência da figura da igreja para a do crente individual. Deus não somente habita entre o povo pelo Espírito, mas também habita “em” cada cristãos individualmente:

“19 Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? 20 Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”.

O contexto é sobre pecado sexual e Paulo está preocupado com a santificação desses crentes. Não temos espaço aqui para ver todo o argumento de Paulo, mas no momento final desse argumento, Paulo apela para a presença do Espírito na vida deles no contexto da obra redentora de Cristo.
Essa habitação individual do crente não o leva a uma vida meramente contemplativa, mas produz a verdadeira ética, esse é o segredo da piedade de Paulo.

Conclusão.

Para Paulo, O Espírito não é uma mera força impessoal, ou uma influência, antes, é o próprio Deus presente “em” e “no meio” do Seu povo.
Nós seres humanos sempre temos a tendência de radicalizar para algum extremo. Talvez sempre haverá na história da igreja um grupo de homens (sinceros e devotos) que olha para uma instituição eclesiástica morta e diz: O Espírito Santo não habita ai, logo não habita na igreja coletivamente. Isso leva inevitavelmente a uma espiritualidade individual, monástica e egoísta.
Por outro lado, em reação a esse pietismo, haverá aqueles que em reação a ele, e com medo dessa individualidade mortal, levantarão a voz e dirão que o Espírito não habita em cada crente individualmente, ma somente quando o povo de Deus se reúne.
Ambas as posições são reacionárias e não exegéticas (e não bíblicas). Se quisermos ser bíblicos em nossa teologia do Espírito, precisamos afirmar, junto com Paulo, essas duas gloriosas verdades: O espírito habita na vida de cada cristão individualmente, santificando-o e preparando-o para o retorno de Cristo, e habita também no meio da congregação, levando-a a adorar a Deus em “espírito e em verdade”.

Por Willian Orlandi

[1] Gordon Fee, “Paul, Spirit and the people of God”, p. 15.
[2] Ibid., p.18.

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