Habitação de Deus: A igreja como o templo escatológico nas cartas de Paulo. (parte 1/2)

Introdução.

O conceito de “presença” sempre soa doce e agradável aos nossos ouvidos. É algo insubstituível. E-mails, Facebook, Twiter, telefonemas,presentes, fotos, memórias, momentos, nada disso é melhor do que estar pessoalmente presente com alguém.
Esse é um conceito de suma importância nas páginas da Escritura Sagrada. Deus nos fez assim, nos criou a Sua própria imagem e semelhança, Ele próprio é um Ser pessoal e relacional. Com a queda no pecado, a humanidade perdeu seu relacionamento com Deus, mas para Paulo, a vinda de Cristo e do Espírito mudou isso para sempre.

A presença de Deus no Antigo Testamento.

A presença de Deus é um motif crucial tanto no Antigo como no Novo Testamento. As Escrituras começas descrevendo Deus criando todas as coisas e habitando com a coroa da Sua criação (a humanidade) criada à Sua própria imagem, no jardim do Éden. E termina com a maravilhosa figura da terra e céus renovado e do Éden renovado em Apocalípse. João diz: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22).

O Tabernáculo e o Templo.

Uma das maneiras mais proeminentes de se experimentar a presença de Deus no Antigo Testamento era no tabernáculo e no templo. Esse tema da “presença”, culminando na descida da glória de Deus no tabernáculo, é a chave estrutural do livro do Êxodo [1]. Na sarça ardente (Ex 3) Deus primeiramente se manifesta a Moisés no Monte Sinai. Então Deus instrui Moisés para trazer Israel àquele lugar para adorá-Lo. Quando Israel chega ao monte em Ex 19, Eles chegam ao lugar da “habitação de Deus”, lugar este que ninguém era permitido nem tocar nesse monte, sob pena de morte, apenas Moisés tinha acesso a presença de Deus.
Mas deus planejava sair do Monte para habitar no meio do Seu povo, através do tabernáculo. Então após a entrega do livro da aliança (caps. 20-24), Moisés é instruído para construir o tabernáculo (caps. 25-31), mas entre as instruções e a construção (35-39), ocorre o desastroso episódio do deserto (cp. 32), seguido pelo anúncio de Deus a Moisés: “Minha presença não irá convosco”, ao invés disso, iria um anjo (cp. 33). Moisés sabe que essa solução é completamente inadequada, então intercede: “Se a tua presença não vai comigo, não nos faças subir deste lugar. Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?” (Ex 33.15-16).

Segue-se a revelação do caráter de Deus (compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade Ex 34.4-7), e também a construção do tabernáculo, que conclui com a descida da Glória de Deus que “encheu o tabernáculo” (cp. 40.35).
Com isso eles estavam prontos para a jornada até o lugar que “O Senhor escolheu para habitar Seu Nome” (Dt 12.11), guiado pela presença de Deus simbolizados no pilar de nuvem e no pilar de fogo [2].

A promessa de Deuteronômio foi finalmente completada com a construção do templo de Salomão, e a mesma glória “encheu o templo” (1Re 8.11).
Mais até mesmo que as leis, a circuncisão, as leis alimentares, os sábados, as festas, é a presença de Deus que diferenciava Israel dos demais povos da terra.
Os salmistas expressavam o fato de estarem na gloriosa presença de Deus:

“Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos!
A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo”! (Sl 84. 1-2)

“Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória”. (Sl 63.2)
Mas Israel falhou em permanecer na presença de Deus. Foi isso que causou a ruína de Jerusalém e o exílio. O templo, habitação de Deus foi destruído. O povo foi levado cativo e pior que isso, já não eram conhecidos como o povo da presença do Altíssimo.

A promessa da presença renovada.

Mas nem tudo estava perdido. A promessa do retorno da presença de Deus era crucial para a esperança profética.
Deus promete em Ezequiel 37.27: “O meu tabernáculo estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”. Também em Malaquias 3.1: “Virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos”.

No período intertestamentário por exemplo, na literatura apocalíptica, no testamento de Daniel 5.13 “E Jerusalém não mais ficará desolada … porque O Senhor estará em seu meio”.
A esperança do retorno da presença de Deus está intrinsecamente ligada a restauração do templo. Temos uma poderosa metáfora disso em Ez 40-48, e o mais memorável oráculo está em Is 2. 2-3 (repetido em Mq 4. 1-2), onde o tema da inclusão dos gentio também é de suma importância.

Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do SENHOR será estabelecido no cimo dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão todos os povos. 3 Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do SENHOR e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do SENHOR, de Jerusalém.

O segundo templo construído não passou nem perto de cumprir essas gloriosa promessas. Isso causou uma miscelânea de sentimentos entre o povo. Em muitos círculos, a reconstrução de um grande templo ainda estava por vir [3].

A presença equivale ao Espírito.

Para Paulo, algo essencial nesse motif era o fato de que em Isaías 63. 9-14, a presença divina na narrativa do Êxodo, equivalia ao “Espírito Santo do Senhor”. O profeta disse:

“Em toda a angústia deles, foi ele angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão, ele os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias da antiguidade. Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo, pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles. Então, o povo se lembrou dos dias antigos, de Moisés, e disse: Onde está aquele que fez subir do mar o pastor do seu rebanho? Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo? Aquele cujo braço glorioso ele fez andar à mão direita de Moisés? Que fendeu as águas diante deles, criando para si um nome eterno? Aquele que os guiou pelos abismos, como o cavalo no deserto, de modo que nunca tropeçaram? Como o animal que desce aos vales, o Espírito do SENHOR lhes deu descanso. Assim, guiaste o teu povo, para te criares um nome glorioso”.

Paulo está familiarizado com esse texto e ecoa a linguagem do verso 10 em Efésios 4.30: “E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”.

Por Willian Orlandi

[1] Gordon Fee, “Paul, the Spirit and the people of God”, pp. 10-11.
[2] Ibid.
[3] Cf. Ibid., p. 14.

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