O povo de Deus: Continuidade e descontinuidade em Paulo.

Uma questão primária na teologia do apóstolo Paulo é a continuidade e a descontinuidade entre a antiga e a nova aliança. Sempre esquenta os debates acadêmicos ( e não acadêmicos) a pergunta: Como relacionar o novo testamento com o antigo?
Será que o novo testamento é “novo” num sentido de ser radicalmente diferente do antigo, e este sendo ultrapassado, desnecessário e substituído por aquele? Ou é novo no sentido de “cumprimento” do antigo?

Para entendermos Paulo apropriadamente, precisamos atentar para como sua perspectiva tanto continua como modifica a tradição religiosa na qual ele está inserido, especialmente seu entendimento sobre o Antigo Testamento [1].

A continuidade.

Primeiramente, precisamos reconhecer a consciência de continuidade que Paulo tinha para com sua herança. Paulo via a si mesmo e as suas igrejas como tendo uma ligação direta com o povo de Deus do Antigo Testamento [2].
Tanto a vinda de Cristo como a vinda do Espírito trouxeram corolários radicais, mas mesmo assim, Paulo afirmava essa continuidade. Paulo incluía a igreja gentia no evento do êxodo: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais [3] estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (1Co 10. 1-2).

A linguagem de Paulo nunca foi “Novo Israel” ou “Novo Povo de Deus”, sua linguagem é “Israel de Deus” (Gl 6.16), um Israel em continuação com o passado mas que agora é composto por Judeus e Gentios como o único povo de Deus [4].
Uma linguagem comum de Paulo para com suas igrejas gentias era chamá-los de “santos”. Com tal adjetivo, ele não queria dizer que eles eram “supercrentes”, ou “cristãos excepcionais”, nem no sentido romano de “Santa Teresa” ou “São Benedito”, muito menos no sentido informal e popular de dizer que minha pequena sobrinha fulana é “uma santa”. A designação santos significa o povo santo de Deus, escolhido, separado e redimido, que foi trazido diante de Deus no Sinai, com o propósito de cumprir a vontade de Deus nesta terra (Ex 19.5-6).

Todo o vocabulário de Paulo para se referir ao povo escatológico renovado de Deus encontra suas raízes no Antigo Testamento.
A linguagem mais comum de Paulo é “igreja” (Εκκλησια), e ele tira essa palavra da Septuaginta (LXX) que normalmente usa Εκκλησια para traduzir a palavra hebraica qahal, termo geralmente aplicado a “congregação de Israel”.
O fato de Paulo usar essa linguagem veterotestamentária para se referir a igreja, mostra não somente que ele via uma continuidade entre as duas (Israel e igreja), mas também que a igreja é a sucessora legítima de Israel.

A descontinuidade.

Na teologia de Paulo a descontinuidade é tão clara quanto a continuidade. O povo de Deus agora assumiu uma forma renovada. Cristo é o “fim da lei” (Rm 10.4) [5], e O Espírito como o “Espírito Santo da promessa” (Gl 3.14; Ef 1.13) [6].
A morte e a ressurreição de Cristo trouxe um fim as ordenanças da Torá [7] e ser guiado pelo Espírito substituiu as observâncias como o caminho de Deus para cumprir a Torá [8]. A justiça que a Torá requere agora é cumprida naqueles que andam no/pelo Espírito (Rm 8.4) [9]. A igreja, composta de judeus e gentios, circuncisos e incircuncisos, livres e escravos, ricos e pobres, e definitivamente a comunidade escatológica de Deus, o povo que vive “entre as eras”, a congregação de santos que vivem a vida escatológica já no presente, ainda que aguarde o futuro.

Conclusão.

Em um café com os estudantes do Regent College, Gordon Fee nos conta que um de seus alunos lhe dirigiu a seguinte pergunta: Se o Sr. voltasse para o ministério pastoral, o que enfatizaria? Fee respondeu imediatamente: Não importa o quanto tempo demorasse, em iria, com uma paixão singular, ajudar o corpo local de crentes a recapturarem o entendimento do Novo Testamento de que a igreja é uma comunidade escatológica [10].
A igreja brasileira necessita desesperadamente ter esse entendimento, não só de Paulo, mas também presente em todo o Novo Testamento, de continuidade e descontinuidade. Essa questão teológica está de “pernas pro ar” em nosso meio. Temos a sensação (e quem dera que fosse apenas sensação) de estarmos entrando numa “sinagoga pós-moderna evangélica” ao nos deparamos com as igrejas hoje no Brasil ( e no mundo!). Esse quadro me lembra uma antiga história de alguém que pediu para um pintor para pintar-lhe um “equum volitantem” (um cavalo troteado ou saltador). Ele, confundindo a palavra, pintou-lhe um “equum volutantem” (um cavalo virando cambalhota – com os cascos para cima). O pintor levou-lhe ao freguês, e obviamente este o censurou por causa do erro. O pintor, então, respondeu: “Se todo o problema é esse, basta virar o quadro de baixo para cima e você terá o que deseja” [11]. Não estamos apenas errando em palavras como esse pintor, mas estamos errando com a Palavra do próprio Deus, e às vezes precisamos virar nossa teologia em 180º para a corrigirmos, moldando-a literalmente ao padrão da palavra de Deus.
Sei que provavelmente não chegamos nem mesmo a arranhar a superfície desse motif, mas o leitor pode servir-se do (brevíssimo) escrito acima, para meditar e iniciar uma reforma pessoal e coletiva.

[1] Gordon Fee, “Paul, Spirit and the people of God”, p. 3.
[2] Ibid. p.4.
[3] Gr. πατερες ημων.
[4] Ibid.
[5] τελος γαρ νομου
[6] Ibid.
[7] Romanos 7. 4-6; 8. 2-3.
[8] Gálatas 5.18.
[9] Ibid.
[10] Ibid. p. 49.
[11] Essa ilustração é de Thomas Adams, citada por C. H. Spurgeon em “Lições aos meus alunos”, Vol 3, p. 38.

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