O Evangelho: Tema e Estrutura de Romanos

Qual é o tema da carta aos Romanos? Resumidamente apresentarei a história da discussão sobre o tema dessa gloriosa carta, e como veremos, cada linha de pensamento difere em sua ênfase em alguma seção da carta. Alguns teólogos enfatizam o começo de Romanos, outros o meio e outros ainda o fim, tentando encontrar o tema central dessa carta.

Os reformadores e seus seguidores deram grande destaque a Rm 1-5, argumentando que o tema da justificação pela fé é o tema central de Romanos [1].

No começo do século XX, Schweitzer e outros argumentaram que justificação pela fé é meramente mais um tópico, uma doutrina que Paulo usava para combater os judaizantes. Para eles, o tema central estava nos capítulos 5-8, sobre a união com Cristo e a operação do Espírito de Deus.

Outros teólogos que também jogam a justificação pela fé para o escanteio, dizem que o problema da consciência individual moderna está na questão: “Como um pecador pode se tornar justo diante de Deus”? Mas essa não era a preocupação de Paulo (dizem eles). A real preocupação de Paulo era “como os gentios podem ser incorporados aos judeus como povo de Deus sem interferir na continuidade da história da salvação”? Para esses teólogos, os capítulos 9-11 são o coração da carta [2].

Finalmente, nos últimos 30 anos, tem tido uma ênfase nas necessidades da igreja de Roma. Para os que defendem essa abordagem, a exortação de Paulo à unidade em 14.1-15.13 expressa o propósito central da carta.

O erro de todas essas abordagens está em impor um tema para a carta que Paulo não pretendia, além de focar apenas em uma seção do interesse do teólogo.
Mas o que queremos dizer com “tema” ou o “centro” da carta? Será que queremos dizer que é a doutrina que fundamenta e unifica a carta, ou o tópico mais importante ou crítico, ou algo a mais?

Para evitar mais confusões, definirei “tema” como o arcabouço tópico que é capaz de “encabeçar” ou estruturar Romanos como um todo.
Qual será então o tema de Romanos? Um dos melhores comentários de Romanos de todos os tempos, e para mim é o melhor, Douglas Moo argumenta habilmente que “o evangelho” é o tema central de Romanos [3].

Irei mostrar agora como o tema “evangelho” estrutura a carta aos Romanos [4].

I. Introdução da carta (1.1-17)

A. Prescrição (1.1-7)
B. Ações de graças e ocasião (1.8-15)
C. O tema da carta (1.16-17)

II. O coração do evangelho: Justificação pela fé (1.18-4.25)

A. O reino universal do pecado (1.18-3.20)
B. justificação pela fé (3.21-4.25)

III. A segurança que o evangelho provê: a esperança da salvação (5.1-8.39)

A. A esperança da glória (5.1-21)
B. Liberdade da escravidão ao pecado (6.1-23)
C. Liberdade da escravidão da lei (7.1-25)
D. Segurança da vida eterna no Espírito (8.1-30)
E. A segurança dos crentes celebrada (8.31-39)

IV. Uma defesa do evangelho: O problema de Israel (9.1-11.36)

A. Introdução: A tensão entre as promessas de Deus e o problema de Israel (9.1-5).
B. Definindo a promessa (1): A eleição soberana de Deus (9.6-29)
C. Entendendo o problema de Israel: Cristo como o clímax da história da salvação (9.30-10.21)
D. Sumário: Israel, o “eleito” e o “endurecido” (11.1-10)
E. Definindo a promessa (2): O futuro de Israel (11.11-32)
F. Conclusão: Louvor a Deus a luz de Seu plano maravilhoso (11.33-36)

V. O poder transformador do Evangelho: a conduta cristã (12.1-15.13)

A. O coração da questão: transformação total (12.1-2)
B. Humildade e serviço mutuo (12.3-8)
C. O amor e a sua manifestação (12.9-21)
D. O cristão e os governantes seculares (13. 1-7)
E. O amor e a lei (13.8-10)
F. Vivendo à luz do Dia (13.11-14)
G. Um pedido para a unidade (14.1-15.13)

VI. Conclusão da carta (15.14-16.27)

A.O ministério de Paulo e seu plano de viagem (15.14-33)
B. Saudações (16.1-24)
C. Conclusão Doxologica (16.25-27)

Espero ter ajudado o leitor a entender o tema e o quadro geral dessa difícil, porém gloriosa carta. Cristo é o evangelho. O evangelho é o centro de Romanos. O evangelho cristocêntrico precisa ser o centro de nossas vidas também.

[1] João Calvino, no entanto colocou a justificação pela fé como central apenas nos 5 primeiros capítulos.
[2] Ver principalmente K. Stendahl, “The apostle Paul and the introspective conscience of the West”.
[3] Douglas Moo, “The epistle to the Romans”, em The New International Commentary of the New Testament, pp. 22-30.
[4] Essa estrutura é um resumo da estrutura apresentada por Moo, “Romans”, NICNT, pp. 33-35.

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