A vida futura aqui e agora: a presente realidade da existência escatológica no evangelho de João

João declara explicitamente qual é o propósito do seu evangelho, é para que seus leitores tenham “vida” no nome de Jesus. O termo vida é de extrema importância para João, tanto que ele a usa 35 vezes, ¼ das ocorrências em todo o Novo Testamento[1]
Beirando a metade dessas ocorrências, João une o adjetivo “eterna”, e as expressões vida e vida eterna são equivalentes. Qual é esse significado?

“Vida eterna” na literatura contemporânea a João.

O Antigo Testamento usa a expressão vida eterna apenas uma vez, mas serve como o paradigma para a literatura judaica próxima ao tempo de João.
Na última visão de Daniel, um ser angelical aparece a Daniel e relata o que acontecerá no fim dos tempos. Após um tempo de grande sofrimento, Deus libertará seu povo e “multidões que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno (Dn 12.2).
Da mesma forma, o segundo dos mártires macabeus desafia o rei sírio Antíoco IV com essas palavras “… o Rei do mundo nos fará ressuscitar para uma revivificação eterna da vida (2 Mac 7.9). Similar a Daniel, aqui Deus restaura a vida de um fiel em meio ao sofrimento que morrera.

Daniel faz um nítido contraste entre a vida eterna dos justos com a vergonha eterna dos ímpios que perseguiram o povo de Deus [2]. Esse chocante contraste reaparece no livro Salmos de Salomão, escrito no séc. I A.C., mais próximo dos dias de João:
A destruição do pecador é para sempre, e ele não será lembrado quando (Deus) procurar pelo justo. Esta é a parte dos pecadores para sempre, mas os que temem o Senhor se levantarão para a vida eterna e a sua vida transcorrerá à luz do Senhor, e ela nunca terá fim (Salmos de Salomão 3. 11-12)..

A modificação da tradição escatológica feita por João.

Ao lermos o evangelho de João, percebemos uma continuidade com a tradição escatológica judaica, ou seja, a vida eterna ainda está porvir. Mas João não simplesmente continua e aceita essa tradição, mas também a modifica. Ecoando as palavras de Daniel 12. 2 Jesus disse: “… todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados” (Jo 5. 28-29). D. A. Carson mostra que “a ressurreição apocalíptica futura e final está em vista aqui” [3].

Jesus também fala a respeito do ódio pela própria vida “neste mundo” a fim de conserva-la para a vida eterna de maneira tal que quase duplica o contraste tradicional entre o tempo presente e a era futura (Jo 12.25)[4]. Do mesmo modo, ele usa a linguagem tradicional a respeito da ressurreição dos mortos no “último dia” (Jo 6. 39, 40b, 44b, 54b, Cf 12.48)[5].

Frank Thielman observa corretamente que a diferença crucial entre o uso desse conceito no evangelho de João e o uso tradicional nos textos judeus e cristãos está no modo enfático pelo qual João assevera que a “vida eterna” se torna realidade no presente, antes da morte física e do “último dia”[6].

Em 4. 36, usando a ilustração da colheita encontrada na tradição para descrever a restauração ou o juízo escatológico (Is 27.12; Am 9.13; Jl 3.13; MT 13. 39-42; Ap 14. 15-16), Jesus diz que aquele que colhe já recebe seu salário e colhe o fruto para a vida eterna[7].

Também em 6.40, Jesus diz à multidão de galileus que todo aquele que vê o filho e crê Nele tem “a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. A tradicional ordem de primeiro a ressurreição e depois a vida eterna foi invertida aqui. Para João, a vida eterna está disponível no presente para os que creem no Filho de Deus, e a sua ressurreição dos mortos acontecerá no último dia[8].

A expressão mais clara dessa alteração dramática na expectativa escatológica tradicional ocorre em 5. 24-25[9], em que Jesus diz:

“Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão”[10].

Sair do estado de morte e passar para o estado de vida se torna uma possibilidade para o aqui e o agora através do ouvir e do crer nas palavras de Jesus. Como o próprio Jesus expressou na sua oração que conclui seus discursos de despedida: “A vida eterna é esta, que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (17.3).
Igualmente, aos que não creem, experimentam a condenação escatológica no tempo presente, bem como o derramar da ira de Deus (Jo 3.18; 36).

Conclusão.

João nos ensina que com a vinda do Messias, Jesus Cristo, as expectativas escatológicas foram inauguradas, e elementos como a vida eterna e a condenação foram deslocados para o futuro, dependendo da resposta individual as palavras de Jesus. A hora não está somente porvir, mas é agora. Com isso ele não nega a realidade futura ainda porvir, mas nos chama para crer em Jesus e experimentar a vida abundante que Ele proporciona aos seus.
A vida cristã não é meramente moralidade e regras, mas é viver neste mundo a realidade do porvir.

Por Willian Orlandi

[1] A palavra vida ocorre 135 vezes no Novo Testamento, o que quer dizer que 27% das ocorrências estão no evangelho de João.
[2] Esse contraste também é muito frequente no Novo Testamento. A vida eterna é uma realidade escatológica, algo pelo qual o povo de Deus espera, que é contrastada com a destruição eterna dos ímpios (Cf. Rm 2. 7-8; Mt 25. 46; etc).
[3] D. A. Carson, “O comentário de João”, p. 259.
[4] Frank Thielman, “Teologia do Novo Testamento”, p. 207.
[5] Ibid.
[6] Ibid.
[7] Schnackenburg, “St. John”, Vol I, p. 450-1.
[8] Thielman, p. 208.
[9] Ibid.
[10] “αμην αμην λεγω υμιν οτι ο τον λογον μου ακουων και πιστευων τω πεμψαντι με εχει ζωην αιωνιον και εις κρισιν ουκ ερχεται αλλα μεταβεβηκεν εκ του θανατου εις την ζωην αμην αμην λεγω υμιν οτι ερχεται ωρα και νυν εστιν οτε οι νεκροι ακουσονται της φωνης του υιου του θεου και οι ακουσαντες ζησονται”.

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